quinta-feira, 14 de abril de 2011

Materiais de Construção – Impactos e Alternativas

“Não existem construções que não gerem impacto,a busca é por intervenções que o ocasionem em menor escala”

Não existe um produto que seja 100% sustentável, mas existem muitos pelo mercado da construção que tem muitos benefícios a oferecer e outros, muitos malefícios a esconder!
Nem todos os produtos denominados de “eco” ou “verdes” são sustentáveis. Como no Brasil não existem regras estabelecidas para selos verdes, muitos fabricantes criam seus selos próprios, quando acham que algo em seus produtos é mais sustentável, porém sua produção pode estar sendo prejudicial ao ambiente.
Temos o exemplo do selo ISO 14000, ele indica que a produção de determinado produto tem um sistema de gestão ambiental (pode gastar menos água/energia e/ou tratar os resíduos e emissões), mas a matéria-prima do material, seu descarte e suas emissões durante o uso na construção podem ser bastante maléficos, como é o caso do PVC e de muitas tintas do mercado…
Como então saber se um produto é mais sustentável que outro?
Para ser sustentável, o material deverá ter menos impatos ambientais e sociais durante toda a sua vida útil, desde a extração na natureza, até o modo como é construído/utilizado e depois, descartado (se puder ser reutilizado ou reciclado, melhor ainda!).
Para ajudar nessa difícil tarefa de escolher e analisar um produto, uma relação de categorias de impacto devem ser respeitadas:
·         CATEGORIA A: Água – selecionar materiais e componentes que contribuam para o uso racional de água, ou que não comprometam os recursos hídricos;


·         CATEGORIA MP: Matéria-prima – selecionar materiais e componentes com matéria-prima local, natural, com longa vida útil, de fonte certificada, com extração sem impactos, reciclada ou de reuso, de fonte renovável, sem componentes poluentes;


·         CATEGORIA EN: Energia – selecionar materiais e componentes que contribuam para o uso racional de energia, que priorizem o uso de energia de fontes renováveis;


·         CATEGORIA EM: Emissões – selecionar materiais e componentes que possuam baixa emissão de gases de efeito estufa, gases tóxicos ou perigosos, principalmente VOC;
·         CATEGORIA RE: Resíduos – selecionar materiais e componentes cujos resíduos são atóxicos, sem POP, recicláveis, recuperados pelo fabricante, reutilizáveis ou biodegradáveis;


·         CATEGORIA T: Transporte – selecionar materiais locais, diminuindo transporte de mercadorias, ou usar materiais transportados por meios de baixo impacto;


·         CATEGORIA SE: Aspectos sócio-econômicos – selecionar materiais que possuam viabilidade econômica; contribuam para um ambiente saudável e seguro; possuam boa transferência tecnológica, viabilidade de industrialização e comercialização; sejam produzidos com respeito às condições humanas, com políticas empresariais de ações sociais; e que dão ênfase à economia local.
Claro que é difícil obter todas essas informações sobre um produto, mas devemos estar mais atentos aos produtos do mercado: do que é feito, quem fabricou, de onde veio, se o material é poluente e artificial ou natural… busque o máximo de informações!
Para ajudar mais um pouco, indicamos uma matéria da Planeta Sustentável, que indica lojas verdes que vendem produtos ecológicos, econômicos e sustentáveis: planetasustentavel (Ver no destaque).

O que são produtos sustentáveis?


Produtos sustentáveis são aqueles que incorporam os atributos essenciais da sustentabilidade: salubridade (não pode fazer mal à saúde), qualidade (comprovada para o que se propõe) e responsabilidades social, ambiental e de comunicação com o consumidor. Não se deixe levar pela embalagem se é reciclada ou não. Isso não é importante em uma primeira análise.

Atributos essenciais da Sustentabilidade são aqueles que não podem faltar em nenhum produto para que possa ser considerado sustentável. São eles:

·         SALUBRIDADE DO PRODUTO

·         QUALIDADE DO PRODUTO

·         RESPONSABILIDADE SOCIAL DO FABRICANTE

·         RESPONSABILIDADE AMBIENTAL DO FABRICANTE

·         COMUNICAÇÃO RESPONSÁVEL COM O CONSUMIDOR

Atributos Complementares da Sustentabilidade são aqueles que contribuem, adicionalmente, para menores impactos socioambientais. São eles os relativos a:

·         SUSTENTABILIDADE DO PROJETO

·         SUSTENTABILIDADE DA FABRICAÇÃO

·         SUSTENTABILIDADE DA COMERCIALIZAÇÃO


Nenhum produto pode ser considerado sustentável se:

· Fizer mal à saúde humana;
· Não tiver qualidade para o que se propõe, levando à baixa produtividade, ao desperdício e a custos mais elevados;
· Seu fabricante não respeitar os direitos sociais e a cultura local;
· Seu fabricante não tiver procedimentos de preservação do meio ambiente; e

· A comunicação com os consumidores não se dá de forma ética.


CONCEITOS
Produto Ecológico - É aquele que é produzido com a preocupação, quase que única, de preservar o meio ambiente o mais intacto e, se for possível, reconstituído.

Produto Orgânico - É todo produto, animal ou vegetal, obtido sem a utilização de produtos químicos ou de hormônios sintéticos que favoreçam o seu crescimento de forma não natural.

Produto Verde - É aquele que se preocupa em menores impactos ambientais (p.ex. eficiência energética, origem dos materiais etc...) e também com a saúde humana.

Produto Sustentável - É aquele que também incorpora os aspectos de responsabilidade social além do ambiental e de saúde das pessoas.

Lojas verdes

SUPERGREEN
Boa para: soluções sustentáveis de hidráuli©Veridiana Scarpellica e energia.
Por que escolhemos: oferece sistemas de água e energia solar de acordo com a demanda do cliente. Entre os mais vendidos estão tubos e conexões de PPR, captação e reúso de água de chuva, painéis fotovoltaicos, aquecimento solar de água a vácuo e sistemas de tratamento biológico de esgoto.
Fator extra: promove cursos de capacitação de mão-de-obra para instalações hidráulicas.
Como trabalha: soluções e produtos sob encomenda, com garantia dos fabricantes e profissionais indicados para a instalação.
Informações: www.supergreen.com.br; tel. (11) 3744-3051, São Paulo.
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PRIMAMATÉRIA
Boa para: todas as etapas da obra, da estrutura aos acabamentos.
Por que escolhemos: o show room incorpora alguns produtos oferecidos pela loja, como tintas à base de terra e piso de marmoleum.
Outras opções: pisos de madeira de reflorestamento, equipamentos para captação de água de chuva e painéis fotovoltaicos.
Fator extra: para quem vai construir, a loja conta com profissionais para a elaboração do projeto.
Como trabalha: produtos sob encomenda, com entrega em uma semana. A instalação feita por profissionais indicados pela loja.
Informações: www.primamateria.com.br; tel. (11) 3814-8443, São Paulo.
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ECOPRODUTOS
Boa para: todas as etapas da obra, do projeto à decoração.
Por que escolhemos: Ela é apoiada pelo Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica, que presta serviço de consultoria de projetos e desenvolvimento de produtos sustentáveis.
A loja comercializa cerca de 5 mil itens – argamassas, tintas, telhas, peças artesanais e produtos de limpeza.
Fator extra: organiza cursos de capacitação em ecoprodutos para profissionais da construção.
Como trabalha: produtos e soluções sob encomenda, garantia dos fabricantes e indicação de mão-de-obra.
Informações: www.idhea.com.br; tel. (11) 3227-4742, São Paulo.
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ECOLEO
Boa para: acabamentos de madeira e produtos para marcenaria.
Por que escolhemos: aberta em 2003, foi a primeira revenda de madeira certificada da América Latina. Todos os produtos levam o selo do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC): painéis, pranchas, compensados, MDF e madeira serrada bruta de várias espécies.
Fator extra: promove treinamento e consultoria para arquitetos designers e marceneiros. Tem parceria com escolas de marcenaria moderna do Senai. Como trabalha: produtos com pronta entrega e indicação de mão-de-obra.
Informações: www.ecoleo.com.br; tel. (11) 3812-3422, São Paulo; tel. (21) 2221-0777, Rio de Janeiro
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ECOCASA
Boa para: soluções hidráulicas e de acabamento.
Por que escolhemos: a loja trabalha exclusivamente com produtos e serviços sustentáveis para construção e reforma.
Destaque para o sistema de captação de água de chuva, coletores solares e madeira plástica (feita de plástico reciclado, é ideal para piso, deck, bancos de jardim e acabamentos).
Fator extra: elabora projetos de acordo com a demanda do cliente.
Como trabalha: produtos sob encomenda, com assistência técnica e instalação feita pela loja ou com indicação de mão-de-obra.
Informações: www.ecocasa.com.br; tel. (19) 3442-8434, Limeira, SP.
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CEC.COM.BR
Boa para: etapas de acabamento.
Por que escolhemos: a loja virtual da C&C conta com cerca de 250 produtos com o selo ECO2, que identifica materiais de construção ecológicos e econômicos.
Destaque para luminárias solares, lâmpadas eficientes, tintas à base de água e equipamentos que reduzem o consumo de água em banheiros e cozinha.
Fator extra: inscrição online para diversos cursos gratuitos oferecidos nas lojas.
Como trabalha: compras pelo site, com entrega em todo o Brasil. Garantia dos fabricantes e prazo de troca de até 30 dias.
Informações: www.cec.com.br; SAC (11) 4004-1444, São Paulo.

Impactos e alternativas de alguns materiais

1) Cimento

Os impactos da indústria do cimento estão relacionados a extração de matéria-prima, que causa degradação do habitat natural, emissão de material particulado que causam problemas à saúde humana, e macroimpacto causado na fase da clinquerização, que emitem gás carbônico e agravam o efeito estufa.

Alternativas: Tijolo de Solo-cimento (consome menos energia que os tijolos cerâmicos).


2) Aço


O aço é normalmente considerado um amigo do meio ambiente, por ser 100% reciclável.

No entanto, praticamente todo o ferro utilizado na produção do aço provém do ferro-gusa, obtido a partir da fusão de minério de ferro em altos-fornos, onde carvão mineral ou vegetal é utilizado como agente redutor e fonte de energia. Em 2006, o Brasil foi o maior produtor mundial de carvão vegetal e as indústrias siderúrgicas consumiram mais de 90% da quantidade total do insumo produzido no País, e 49% foi obtido a partir da derrubada de matas nativas.

Além de ser considerada uma atividade altamente poluente, a produção de ferro-gusa e aço demanda uma enorme quantidade de energia, principalmente na forma de carvão mineral (com os devidos impactos sobre as mudanças climáticas) ou carvão vegetal (cuja produção é associada à destruição de matas nativas e à expansão da monocultura de eucalipto).

Segundo o Ministério de Minas e Energias, os setores de ferro-gusa e aço consumiram quase 10% do total da energia utilizada no país em 2006. Como agravante, é preciso considerar que um terço da energia utilizada por esse setor vem da queima de carvão mineral, uma das fontes de energia que mais contribui para as mudanças climáticas.
Com relação às emissões atmosféricas, os poluentes gerados pelas siderúrgicas são vários. Dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) contribuem para o aumento da quantidade de carbono na atmosfera e, consequentemente para as mudanças climáticas. Além deles, óxidos de enxofre (SOx) e óxidos de nitrogênio (NOx) reagem com a umidade presente no ar e formam, respectivamente, ácidos de enxofre e ácidos de nitrogênio, constituindo assim a chamada “chuva ácida”. Existem ainda os chamados poluentes orgânicos, alguns dos quais podem causar diferentes tipos de câncer.
Outro impacto importante da produção de aço diz respeito ao seu efeito sobre os corpos d´água. De forma geral, os efluentes líquidos apresentam alta concentração de contaminantes, como amônia, benzeno, óleos, cobre, chumbo, cromo e níquel. Apesar das empresas terem estações de tratamento de efluentes, o relatório “O estado real das águas no Brasil”, desenvolvido pela Defensoria da Água, aponta duas siderúrgicas entre as cinco empresas mais poluidoras no país. A organização cita a CSN em terceiro lugar, devido a problemas como depósito irregular de resíduos, vazamentos de benzeno e diversos casos de poluição hídrica. A Gerdau, por sua vez, é listada em quarto lugar por depositar resíduos em local irregular e por sua atuação em conflitos fundiários no litoral sul de Santa Catarina, prejudicando comunidades tradicionais.
3) PVC

Além de suas características carcinogênicas, os plásticos não-biodegradáveis como o PVC apresentam um sério problema para o lixo das grandes cidades. Por se tratar de compostos orgânicos, os componentes destes plásticos podem ocasionar um impacto sistêmico, pois suas substâncias se aderem a plantas e animais, causando doenças e morte por grandes distâncias. O PVC ainda utiliza gás cloro em sua fabricação que, quando queimado, libera ácido clorídrico, causador da chuva ácida.

Alternativas: plásticos PP, PET e PP são os menos tóxicos, apesar de também envolverem substâncias perigosas, porém são facilmente recicláveis.

4) Tinta

  • Usar tinta à base de água e sem solventes orgânicos em sua composição.

OBS: Estas mesmas considerações valem para adesivos, selantes, impermeabilizantes, silicones, vernizes, emulsões asfálticas.


5) Dry All

A tecnologia dry wall oferece baixíssimo impacto ao meio ambiente, em comparação com a alvenaria. Alguns fatores contribuem diretamente para isso, tais como:
Quantidade de entulho gerada é substancialmente menor é cerca de 5% do peso da obra, contra 30% da alvenaria;
Reduz em até 80% a utilização de cimento;
Reduz em até 90% o consumo de matérias-primas naturais.
Além disso, seus resíduos, em sua maioria, chapas e de perfis estruturais de aço, podem ser totalmente reciclados.
6) Economia e Racionalização da Água

  • Utilizar torneiras com sensores e temporizadores,
  • válvulas de descarga e de mictório com baixos volumes de descarga
  • reguladores de vazão para chuveiros e torneiras.

7) Lâmpadas


Verificar se possuem o selo Procel e o teor de  mercúrio contido na composição do produto. Optar por aquelas que além de apresentar o menor teor deste metal, também tenham instruções sobre o que fazer em caso de acidente e seus fabricantes e distribuidores se responsabilizem por recolher lâmpadas queimadas.

*Fluorescentes


8) Pisos, concreto, porcelanatos


É interessante optar por fabricantes que utilizem materiais reciclados para compor o produto (sem, é claro, perder a qualidade), e tenham a extração de matérias-primas e manufatura do produto nas proximidades da obra, reduzindo assim os gastos com transporte. É válido também optar por materiais que possam ser reciclados no futuro.


Sobre Certificação


Selo Procel de Eficiência Energética – Eletrodomésticos
Cerflor e Forest Stewardship Council (FSC) – Madeira
SustentaX - Materiais para a construção, reformas, decoração e operação de edificações. (www.selosustentax.com.br)

LEED - Leadership in Energy and Environmental Design


Cinco pontos:

  • Espaço sustentável;
  • Racionalização do uso da água;
  • Eficiência energética;
  • Qualidade ambiental interna; e
  • Sustentabilidade dos materiais.


ACQUA

Inspirado no selo francês HQE, o AQUA – Alta Qualidade Ambiental foi desenvolvido pelos professores da Escola Politécnica e pode ser lido na íntegra no site da GEA Construction - Global Environmental Alliance for Construction.
O AQUA é o primeiro selo que levou em conta as especificidades do Brasil para elaborar seus 14 critérios – que avaliam a gestão ambiental das obras e as especificidades técnicas e arquitetônicas. São eles:

Eco-construção

- relação do edifício com o seu entorno
- escolha integrada de produtos, sistemas e processos construtivos e
- canteiro de obras com baixo impacto ambiental.


Gestão

- da energia
- da água
- dos resíduos de uso e operação do edifício e
- manutenção: permanência do desempenho ambiental.


Conforto

- higrotérmico
- acústico
- visual e
- olfativo.


Saúde

- qualidade sanitária dos ambientes;
- do ar e
- da água.

SUSTENTAX
Segundo o site da Sustentax, que garante materiais sustentáveis no Brasil, as vantagens das construções sustentáveis com selo é o valor agregado que estas possuem:
  • Riscos ambientais reduzidos;
  • Riscos sociais reduzidos;
  • Risco de pós-construção reduzido;
  • Melhor imagem junto ao mercado em expansão;
  • Melhor imagem junto aos utilizadores e consumidores finais;
  • Maior valor percebido do produto / serviço.
O selo Sustentax para projetos de arquitetura tem por objetivo:
  • A conformidade com critérios de sustentabilidade ambiental reconhecidos internacionalmente
  • A conformidade com critérios de qualidade específicos;
  • A conformidade com critérios de salubridade e de proteção à saúde das pessoas;
  • O comprometimento com a responsabilidade social;
  • O comprometimento com a responsabilidade ambiental;
  • O comprometimento com a disseminação de práticas que geram economia, evitam desperdícios e aumentam a produtividade;
  • O comprometimento com a comunicação ética com o consumidor
  • Contribuição para os critérios LEED e AQUA.
Critérios de Análise:
  • Atendimento às normas vigentes de qualidade e especificações de produtos;
  • Baixa emissão de compostos orgânicos voláteis (COVs);
  • Baixo consumo de água;
  • Comprometimento do fabricante em orientar os consumidores quanto ao uso adequado do produto e descarte correto de embalagens;
  • Eficiência de equipamentos;
  • Eficiência e baixo impacto ambiental de equipamentos de limpeza;
  • Emprego de materiais classificados como regionais;
  • Isolamento térmico;
  • Não uso de fontes tóxicas para composição de produtos (exemplo: metais pesados);
  • Regularidade de licença ambiental do fabricante;
  • Responsabilidade ambiental do fabricante;
  • Responsabilidade social do fabricante;
  • Reutilização de matéria-prima;
  • Salubridade de produtos;
  • Uso de componente reciclados;
  • Uso de madeira certificada;
  • Uso de materiais classificados comom rapidamente renováveis.
O selo Sustentax para Construtoras tem por objetivo:
  • Aumentar a produtividade e reduzir custos na implantação de empreendimentos sustentáveis;
  • Aumentar a competitividade dessas empresas na execução de empreendimentos sustentáveis passíveis de certificação por meio da redução de custos via aumento de produtividade;
  • Facilitar a identificação por parte do mercado de que a empresa está preparada para a execução de obras a serem certificadas.
O selo Sustentax atesta:
  • A conformidade de seus procedimentos, incluindo seleção de materiais, instruções para sub-contratados e controle de qualidade de seus serviços, com os requisitos para uma possível certificação ambiental;
  • O comprometimento com práticas socioambientalmente corretas;
  • O comprometimento com a responsabilidade social;
  • O comprometimento com a disseminação de práticas que geram economia, evitam desperdícios e aumentam a produtividade
  • O comprometimento com a comunicação ética com o consumidor.
Exemplos de itens de Sustentabilidade avaliados para o recebimento do Selo SustentaX para Construtoras:

·         Sustentabilidade do Espaço
             - Controle de erosão e sedimentação.
·         Racionalização do uso da água
             - Escolha de Sistemas e componentes hidraúlicos com vazão reduzida.
·         Qualidade Ambiental Interna
- Critérios para o controle da qualidade interna do ar durante a construção e antes da ocupação.
- Critérios para o controle do processo de aquisição, armazenamento, identificação e registro de materiais que serão utilizados na construção, com baixos índices de emissão de Compostos Orgânicos Voláteis (COVs).
·         Materiais e Recursos
             - Gerenciamento dos resíduos da construção civil.
             - Critérios para aquisição e registro de materiais de reuso, reciclados, regionais e                rapidamente renovávies.
             - Critérios para aquisição e registro de madeira certificada.

JARDIM ECOLÓGICO - TRATAMENTO DE ESGOTO POR ZONA DE RAÍZES: ANÁLISE E COMPARAÇÃO DA EFICIÊNCIA DE UMA TECNOLOGIA DE SANEAMENTO APROPRIADA E SUSTENTÁVEL

Resumo

No Brasil o abastecimento de água atinge cerca de 80% da população enquanto que o esgotamento sanitário atinge 50%, e o tratamento de esgoto de fato somente atende 10% desta mesma população. Isto se deve ao alto custo das instalações de redes coletoras de esgoto e dos sistemas de tratamento do mesmo e a dificuldade em acompanhar na mesma proporção à oferta de tratamento de esgoto com o crescimento da população. Os sistemas de coleta e  Estações de  Tratamento de  Esgoto (ETEs) centrais podem ser  substituídos por sistemas menores e mais flexíveis desenvolvidos dentro dos princípios das Tecnologias Apropriadas (TAs) e da sustentabilidade que pode atender populações remotas e/ou carentes, principalmente as que estão inseridas na zona rural e regiões peri-urbanas. Na Europa, esta tecnologia das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) por zona de raízes vem sendo muito utilizada em regiões não atendidas por redes coletoras de esgoto, principalmente a zona rural, e é composta por filtros físico-biológicos plantados com macrófitas, onde ocorrem processos aeróbicos e anaeróbicos do tratamento. A ETE por Zona de Raízes desenvolvida no Brasil tornou- se um produto diferenciado daquele utilizado na Alemanha. Nas ETEs nacionais foram realizadas uma série de adaptações para atender as condições locais, apresentando baixo custo de implantação e manutenção, aproveitando os recursos locais – inclusive plantas nativas, materiais alternativos para filtro, como conchas, e evitando equipamentos elétricos para a aeração e condução do tratamento do efluente. Estas ETEs por zona de raízes que sofreram inovações e adaptações, têm atendido a legislação ambiental (CONAMA 357/2005) assim como as Estaduais do Paraná e São Paulo, referente aos valores máximos de Demanda Bioquímica de Oxigênio -DBO e Demanda Química de Oxigênio -DQO para lançamento de efluentes tratados em corpos hídricos, apresentado respectivamente 88% e 86% de eficiência de remoção nestes parâmetros, pela análise realizada em
8 ETEs implantadas a ser apresentada neste artigo. A inovação desta técnica, que as pesquisas paranaenses viabilizaram, permite atender com tratamento adequado as comunidades da zona rural, principalmente àquelas localizadas em áreas alagadas e de linha de maré e também residências e escolas da zona urbana não atendida por rede coletora de esgoto. Um dos pontos fortes desta tecnologia é a sua flexibilidade para se adaptar a diferentes ambientes, a utilização de recursos locais, além de ser uma ferramenta para educação ambiental. Quando as tecnologias são desenvolvidas abordando aspectos econômicos, sociais e ambientais, e são aplicadas visando o bem comum e de forma participativa, estas podem tornar-se um instrumento eficaz para o desenvolvimento sustentável de um processo de gestão local, conforme está indicado na Agenda 21.
02 a 05 de junho 2008
Campus Irati





Palavras-chave: Saneamento, ETEs por Zona de Raízes, Tecnologia Apropriada, Wetlands contruídos , saneamento rural.



Introdução

A  falta de saneamento foi  tema abordado na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, também conhecida como Conferência Rio+10, realizada na África do Sul em 2002. O resultado mais significativo dessa Conferência foi à definição dos oito (8) Objetivos do Milênio, apresentando dezoito (18) metas específicas e quarenta e oito (48) indicadores para medir os resultados alcançados em torno destes objetivos. Dentre os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que foram estabelecidos, o objetivo número 7 -  “Garantir a sustentabilidade do meio ambiente”, determina na sua meta número 10 o seguinte: “reduzir para a metade o número de pessoas que atualmente não tem acesso aos serviços de saneamento”, tendo como prazo para alcançar este resultado, o ano de 2015 (IWSC, 2004; ONU, 2005; PAS-LAC, 2005). Esta meta foi elaborada durante a Conferência Internacional de Água Doce, realizada em Bonn (Alemanha), em dezembro de 2001 que abordou o tema “Água: chave para o desenvolvimento sustentável”, onde foi discutido o problema da falta de acesso a água potável que sofrem os pobres (IWSC, 2004). O acesso à água tem relação direta com a produção de esgoto, pois na mesma proporção que se abastece uma comunidade com água, é produzido esgoto, e a falta de tratamento de esgoto traz conseqüências negativas para a sociedade (FUNASA, 1994).
Outro tema levantado durante a Conferência de Bonn, e que já vinha sendo trabalhado pela Organização Mundial de Saúde no Programa Água e Saneamento da América Latina e Caribe - PAS-LAC, foi de como proceder com as desigualdades da oferta de saneamento entre as zonas urbana e rural. Para as comunidades pobres que vivem em áreas peri-urbanas e cidades grandes, o acesso aos serviços de saneamento depende, basicamente, de uma empresa que opere estes sistemas de forma centralizada. Já na zona rural, o problema consiste no custo de implantação e manutenção, que devido às distâncias entre residências em áreas escassamente povoadas (características rurais), aumenta consideravelmente o valor do investimento para a implantação de sistemas coletivos ou centralizados de abastecimento de água e acontece o mesmo em relação aos investimentos para tratamento de esgoto, para os quais continua a ser indicada solução individual para cada residência, que é o tratamento de esgoto por meio de fossa séptica (FUNASA, 1994; ONU- BRASIL, 2005; PMSS, 2006), o que nem sempre é uma solução adequada podendo inclusive tornar- se um foco de contaminação causando mais danos à saúde da população. Para este caso específico, são necessárias soluções técnicas adequadas, tanto do ponto de vista econômico como social.
O PAS-LAC dá atenção especial à zona rural, por considerar que a problemática de saneamento é particularmente grave nestas áreas, discussão que já havia sido abordada na Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente de 1992, em Dublin, e na Conferência Internacional sobre Melhoramento da Sustentabilidade dos Projetos de Água e Saneamento na área Rural, realizada em Cuzco em 1999. Nestes dois eventos foi dada ênfase na importância da gestão dos serviços de saneamento que deveriam ser realizados nos níveis mais baixos, como, por exemplo, no nível comunitário ou de família, nas comunidades rurais. Este princípio é baseado no enfoque da demanda, demonstrado no Quadro 1, e considerado componente chave para a sustentabilidade destes sistemas (IWSC, 2004). As soluções discutidas durante a Conferência de Bonn para a zona rural, reconheceram o enfoque baseado na demanda, e que isto implica capacitação para a administração e monitoramento local, o que, de certa forma, influi nas estruturas de poder local pela descentralização dos serviços, e requer uma re-estruturação na forma convencional de investimentos, que estão voltados, principalmente, para sistemas centralizados e empresas de grande porte (WSP,
2004).
02 a 05 de junho 2008
Campus Irati





Quadro 1: Princípios de sustentabilidade de sistemas de abastecimento de água, baseados no enfoque da demanda e gestão para a zona rural.
A comunidade participa em todo o processo de implementação, conhecendo todas as vantagens e desvantagens da opção técnica e nível de serviço que ela exige e os investimentos e custos para a operação e manutenção.
O governo terá papel de facilitador, estabelecendo políticas e estratégias nacionais claras, promovendo um amplo processo de consulta e apoiando o fortalecimento e a aprendizagem.
O governo promove um ambiente propício para a participação de provedores de bens e serviços e assistência técnica às comunidades, levando em conta o setor privado e as organizações não governamentais - ONGs.
As instituições apóiam a implementação de serviços, providenciam a informação ampla sobre as opções técnicas, níveis de serviços, custos diretos e recorrentes para a comunidade, para que adotem procedimentos participativos com a finalidade de facilitar as decisões.
FONTE: IWSC (2004).

No Brasil, embora o problema de abastecimento de água tenha sido resolvido satisfatoriamente, atingindo cerca de 80% da população, os sistemas de esgoto cobrem menos de 50% dessa população (IBGE, 2000). Segundo o Censo de 2000, temos 2.958.831 domicílios cujo abastecimento de água é realizado de forma rudimentar e 3.705.308 domicílios sem banheiro ou sanitário. Em relação ao esgotamento sanitário, existem 10.594.752 domicílios que utilizam fossa rudimentar, 1.154.910 que utilizam a vala e 1.110.021 que utilizam rio, lago ou mar como forma de esgotamento. Sendo que praticamente a totalidade da população da zona rural do Brasil encontra-se nesta situação (PMSS, 2006).
No litoral paranaense ficou evidenciada a falta e/ou a falha nas estruturas individuais de tratamento de  esgoto,  por  meio  dos  resultados obtidos  no  monitoramento realizado  pelo Instituto Ambiental do Paraná  - IAP nos últimos anos, constatando balneabilidade imprópria em determinadas praias (IAP, 2007), este é somente um exemplo do que ocorre em todo o litoral brasileiro. Apesar dos investimentos realizados no setor, percebe-se a dificuldade em beneficiar às comunidades rurais do litoral por meio de processos de tratamento de esgoto coletivo por causa do alto custo, mantendo-se a indicação do uso de sistemas individuais. Pesquisas  realizadas  por   van   Kaick   et   al   (2005),  demonstraram  que   as   estruturas convencionais individuais, as fossas sépticas seguidas de sumidouro, implantadas na Ilha Rasa no município de Guaraqueçaba são ineficientes, tornando-se um foco de contaminação por entoparasitoses.
Este cenário é a realidade de grande parte da população da zona rural dos países em desenvolvimento. Para alterar este quadro tem-se desenvolvido tecnologias apropriadas para o tratamento de esgoto simples, com baixo consumo energético e custo de implantação e de fácil operação e manutenção. O enfoque não tem sido apenas para as questões técnicas, mas segundo Philippi (1997), tem sido freqüente nas conferências da Internacional Water Association – IWA, a discussão sobre as questões relacionadas à sustentabilidade da gestão da água e conceitos de descentralização.
Segundo Rattner (1992) a tecnologia apropriada vista por meio de um prisma social, pode ser referida como “tecnologia sadia”, a qual é necessária para que ocorra o desenvolvimento sustentável. Para este mesmo autor, este tipo de tecnologia é dependente do entendimento da cultura da população que será beneficiada, pois se os grupos locais não estiverem bem preparados para aceitar e/ou assimilar os impactos e as conseqüências das transformações ocorridas durante a implantação e operação da nova tecnologia, então, esta não será bem sucedida. Além do entendimento da cultura da população atendida, a UNESCO reconhece que o apoio e a legitimidade social das atividades científicas e tecnológicas dependem em grande parte da sua eficiência em satisfazer as necessidades básicas da população (UNESCO, 2004).
02 a 05 de junho 2008
Campus Irati





Pertencendo ao grupo das tecnologias da sustentabilidade, a tecnologia apropriada está colocada como uma intervenção transformadora do mundo da necessidade, pois colabora com o desenvolvimento local através da simplicidade e funcionalidade de seu processo (VAN KAICK, 2002). Segundo  Bezerra  e  Bursztyn  (2000)  o  desenvolvimento sustentável  implica  em  incorporar  o compromisso com a intervenção transformadora do mundo da necessidade, o que requer um acervo de conhecimentos e de habilidades de ação para a implementação de processos tecnicamente viáveis e eticamente desejáveis.
Na busca por soluções eficientes para o tratamento de esgoto, foram desenvolvidos em parceria com empresas privadas, prefeituras, universidades e apoio de ONGs no Paraná,  diversos modelos de Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) por zona de raízes.
Os primeiros estudos com sistema de zona de raízes ou também conhecido por Wetlands construídos de fluxo vertical, foram realizados na década de 70 na Alemanha, e eram denominados
inicialmente como Max Planck Institut Process, e a concepção de tratamento é análoga aos filtros de
areia, e o esgoto precisa passar antes pela fossa séptica para depois ser lançado por meio de tubulações perfuradas na área plantada do filtro, ou seja,  na  zona de raízes plantada em cima de um filtro físico composto por um material de suporte como cascalho ou pedra britada e areia grossa (PHILIPPI, 1997;VAN KAICK, 2002).
A  presença das  plantas nestes filtros,  segundo Brix  (1997), contribui na  eficiência do tratamento de esgoto de 6 formas: i) estabilização da superfície do filtro; ii) promoção de boas condições para o processo físico de filtração; iii) prevenção contra a colmatação em filtros de fluxo vertical; iv) aeração da rizosfera (região de contato entre solo e raízes); v) retirada de nutrientes devido o requerimento nutricional das plantas; e vi) embelezamento paisagístico.
Segundo Weiss (1994), as plantas, independentemente do gênero a que pertençam, devem ter no mínimo características básicas como: aerênquimas bem desenvolvidos (Figura 1a) no caule e raízes que devem ser em forma de cabeleira (Figura 1b). O autor Seitz (1995) e documentos do IWA (2000) aconselham que as plantas, além de apresentarem as características descritas, devem ser de preferência nativas da região ou da área de instalação da ETE, por estarem adaptadas às condições climáticas do local da instalação das ETEs.

A ETE por Zona de Raízes desenvolvida no Brasil tornou-se um produto diferenciado daquele utilizado na Alemanha. Nas ETEs nacionais foram realizadas uma série de adaptações para atender as condições locais, apresentando baixo custo de implantação e manutenção, devido ao aproveitamento dos recursos locais – inclusive plantas nativas, utilização de materiais alternativos e por não usar equipamentos elétricos para a aeração e condução do tratamento do efluente. Estas ETEs foram desenvolvidas objetivando atingir as seguintes metas:
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•          Evitar a contaminação do solo ao redor da residência por efluente doméstico não tratado, que pode conter agentes patogênicos, ovos e cistos de verminoses, e que influenciam negativamente à saúde da família (comunidades rurais /costeiras);
•          Tratar o efluente por meio de uma tecnologia de baixo custo e fácil manutenção;
•          Mudar a consciência em relação aos cuidados com a água e seus usos na residência, por meio da observação do crescimento, do desenvolvimento e do aspecto paisagístico e da qualidade do efluente tratado que sai da estação de tratamento de esgoto;
•          Integrar o sistema de tratamento de esgoto com a paisagem local, utilizando plantas nativas em áreas de Proteção ambiental, e plantas com potencial paisagístico, em áreas da zona urbana;
•          Incluir o sistema de tratamento de esgoto como um elemento estético integrado ao jardim da residência, justamente por não exalar odores possibilitando transformá-lo em um local de observação;
•          Incrementar a fonte de renda nas comunidades pesqueiras com a adequação das condições
de qualidade do corpo d’água para se enquadrar nas condições exigidas pela Legislação Ambiental para a prática da maricultura, tornando-a um reforço de ordem econômica segura;
•          Trabalhar com um sistema de tratamento de esgoto que não necessite de equipamentos que utilizem energia, funcionando todo ele por gravidade e pela ação de oxigenação das plantas.



Objetivo

Este trabalho tem como objetivo demonstrar as adaptações realizadas nas Estações de Tratamento de Esgoto por Zona de Raízes realizadas no Brasil, e o resultado obtido em cada experimento e a comparação da eficiência do tratamento do efluente, utilizando os parâmetros de DBO, DQO e Coliformes Totais e Termotolerantes.



Materiais e métodos

As ETEs pesquisadas são compostas por três tipos de materiais acondicionados em uma área impermeabilizada que irá constituir o filtro propriamente dito. É seguida a lógica do biofiltro (pedra brita e areia), tendo porém mais um filtro auxiliar composto por plantas (Figura 2). O 1º filtro é a zona de raízes formada por espécies vegetais que apresentam aerênquimas, possibilitando o processo aeróbico do tratamento; o 2º contém pedra brita ou material similar e o 3º areia grossa, ocorrendo nestes dois últimos o processo anaeróbico do tratamento. O efluente bruto é lançado por gravidade através de uma tubulação que vem diretamente da fossa séptica para a zona de raízes, enquanto o efluente tratado é captado por tubulações que ficam abaixo da camada de areia.


Figura 02: Desenho esquemático da ETE por zona de raízes
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A ETE 1 foi construída para atender a demanda da Escola Municipal Padre Luigi Salvucci no município de Foz do Iguaçu - PR, a escola atende 1.500 alunos em dois turnos e um terceiro turno com 850 pessoas, com um total de 2.350 pessoas, foi estimado um consumo diário de 47.000 litros de água, considerando um consumo de 20 litros/aluno. A ETE tem uma dimensão de 6m x 8m x 1m, o material utilizado para impermeabilizar foi à lona plástica e a camada de zona de raízes é composta por 2 espécies de plantas exóticas (Cana indica, Papirus do Nilo – Cyperus papyrus) e 3 nativas ( Helicônias, Mini-Papirus e Junco), sendo que a Cana-indica predominou e tomou conta de toda a área da ETE, depois de três meses do plantio.
A ETE 2 foi construída para uma residência no município de Campos do Jordão – SP, que apresenta um consumo diário de 2000 litros de água, a dimensão desta estação é de 5,5m x 3m x
1m, a camada de zona de raízes foi com a planta exótica Zantedeschia aethiopica (Copo-de-Leite).
A ETE 3 foi construída para uma residência a beira mar, em uma área de proteção ambiental no município de Guaraqueçaba – PR, que apresenta um consumo diário de 500 litros. A ETE possui uma área de 2,30mX2,30mX1m e o isolamento foi construído em concreto armado com laje no piso, para suportar a ação da maré. A zona de raízes foi constituída por plantas da espécie nativa Cladium mariscus, e o filtro de brita foi substituído por conchas de ostras.
A ETE 4 foi construída para uma residência na Reserva Natural Morro da Mina, no município de Morretes – PR, que apresenta um consumo diário de 240 litros. O isolamento foi realizado com lona plástica e a planta utilizada foi a espécie nativa Typha domigensis, para compor a zona de raízes.
A ETE 5 foi construída para um alojamento de guarda-parques na Reserva Natural Serra do Itaqui, no município de Guaraqueçaba – PR, apresenta um consumo diário de 300 litros. A estação é de alvenaria com uma área de 1mX 1mX 1m e a planta utilizada para compor a zona de raízes foi a espécie nativa Crinum salsum.
A ETE 6 foi construída para uma residência na Reserva Natural Rio Cachoeira (RNRC), no municipio de Antonina – PR. A estação foi impermeabilizada com uma caixa d’água de 1000 litros com as dimensões de 1,30mX 0,90mX 0,80m, para uma demanda de 4 pessoas e a planta foi a espécie nativa Typha domingensis. Nesta ETE foi tratado todo o esgoto proveniente do banheiro, ou seja, chuveiro, pia do banheiro e vaso sanitário.
A ETE 7 foi construída para uma residência na Reserva Natural Rio Cachoeira (RNRC), no municipio de Antonina – PR. A estação foi impermeabilizada com uma caixa d’água de 1000 litros
com as dimensões de 1,30mX 0,90mX 0,80m, para uma demanda de 5 pessoas e a planta utilizada foi a espécie nativa Typha domingensis.   Nesta ETE foi tratado o efluente proveniente do vaso sanitário, passando antes por uma fossa séptica e lançado da ETE por um ramal da tubulação de dispersão de esgoto, e no outro ramal eram distribuídas as águas provenientes do chuveiro, que não
passavam por fossa séptica ou caixa de gordura.
A ETE 8 foi construída para uma residência na Reserva Natural Rio Cachoeira (RNRC), no municipio de Antonina – PR. A estação foi impermeabilizada com uma caixa d’água de 1000 litros com as dimensões de 1,30mX 0,90mX 0,80m, para uma demanda de até 8 pessoas e a planta foi a espécie nativa Typha domingensis, e só foi tratado o efluente proveniente do vaso sanitário.
Foram realizadas as análises das amostras do efluente bruto e tratado para os parâmetros físico-químicos de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Demanda Química de Oxigênio (DQO)na 8 ETEs, e dos parâmetros biológicos de Coliformes termotolerantes e totais em 7 ETEs. O cálculo da eficiência de remoção em porcentagem, foi realizada por meio das médias obtidas nos resultados de cada amostra realizada nas ETEs, e a eficiência geral da ETE foi calculada pelas médias totais destes resultados.



Resultados

As ETEs por zona de raízes demonstraram uma eficiência média de redução do esgoto bruto para o tratado de 88% para DBO (mg/L) e 86% para DQO (mg/L) (Tabela 01). Esta tecnologia se
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mostrou viável  para  ser  implantada em  área  da  zona  rural,  principalmente naquelas que  se encontram próximas à área alagadas, beira mar e em solos hidromórficos, e em Unidades de Conservação e áreas de mananciais de regiões metropolitanas não atendidas por sistemas de coleta e tratamento de esgoto, porque atendem os limites indicados para os parâmetros de DBO sugeridos pelo instituo Ambiental do Paraná - IAP , e pela legislação ambiental de São Paulo, para lançamento de efluentes.

Tabela 01: Eficiência média dos parâmetros físico-químicos das ETEs.
Parâmetros                 Eficiência média em %
DBO (mg/L)                88
DQO (mg/L)                86

Os resultados dos parâmetros físico-químicos (DBO e DQO) das 8 ETEs por zona de raízes estudadas encontram-se nas tabelas 02 e 03, e pode-se observar que as estações obtiveram uma eficiência média acima dos 85% (Tabela 01), reduzindo a carga de matéria orgânica  nos limites estabelecidos de 60mgO2/L para DBO e de 120mgO2/L para DQO, para lançamento de efluentes em corpos d´água, indicados pelo IAP.

Tabela 02: Resultado dos parâmetros físico-químicos das ETEs analisadas.
ETE 1                         ETE 2      ETE 3                         ETE 4

Parâmetros
Efluente                      Efluente
Efluente                      Efluente
Bruto   Tratado   %
Tratado
Bruto   Tratado   %    Bruto   Tratado   %

DBO (mg/L)   195      45           77   20            362      58           84   615      70           89
DQO (mg/L)   527      122         77   52            590      108         82   1498    209         86

Tabela 03: Resultado dos parâmetros físico-químicos das ETEs analisadas..
ETE 5                      ETE 6                      ETE 7                      ETE 8
Parâmetr
Efluente                   Efluente                   Efluente                   Efluente
os

DBO
Brut o
Tratad
o            %
8
Brut o
165
Tratad
o            %
9
Brut o
192
Tratad
o            %
9
Brut o
Tratad
o            %
8
(mg/L)         294     42
6     7         35
8     9         59
7     330     36,85     9
DQO
(mg/L)         686     209
7     623
0     4         118
9     235
8     0         103
9     211                   9
5     3         140        3


Nas ETEs instaladas na Alemanha as áreas utilizadas para o tratamento de efluente na zona de raízes, segundo Bahlo (1996) e Ambros (1998), chegam a ser de 3 a 5m2. As pesquisas realizadas no Brasil   demonstraram que é possível reduzir estas áreas para   1m2  por pessoa chegando em alguns casos a até aproximadamente 0.67m2 por pessoa, mantendo a eficiência. Estas reduções das áreas não afetaram a eficiência das ETEs, já que os resultados demonstram que das 8
ETEs estudadas que possuem área de filtro para tratamento de 1m2  a 0,67 m2  por pessoa, alcançaram em sua maioria limites menores que os 60mg/L   de DBO exigidos pela legislação,
reduzindo em média 88% de matéria orgânica do efluente (Tabela 03).
As pesquisas realizadas por Lehman (1990) e Bahlo (1996), demonstraram que as ETEs por meio de zona de raízes podem evaporar de 800 –1000 litros de água por m2  por ano. No verão europeu a evaporação da água que entra na ETE pode ser de até 30% por meio das plantas. O autor Ambros (1998), identificou em suas pesquisas uma média anual de evaporação de água pelas
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plantas que chega a 1000 litros por ano, o que corresponde a 25% da evaporação da água que entra na ETE. Em climas tropicais, onde a insolação ao longo do ano pode ser maior do que em regiões européias e sem as condições climáticas do inverno europeu, a probabilidade da evaporação da água da ETE pela planta pode ser de aproximadamente 40%.
Na camada do filtro composto pelas plantas (zona de raízes) é onde ocorre a fixação das bactérias que recebem oxigênio. O oxigênio retirado da atmosfera é conduzido por meio dos aerênquimas da folhas, do caule que chegam até as raízes das plantas. Em troca, as bactérias decompõem a matéria orgânica, transformando-a em nutrientes que são consumidos pelas plantas e bactérias. Nos  sistemas convencionais anaeróbios de  tratamento de  efluente, o  processo de decomposição da matéria orgânica libera gases que produzem mau cheiro. No caso desta ETE, os gases produzidos pelo processo anaeróbio que fica na camada logo abaixo das raízes, são filtrados quando atravessam a camada composta pela zona de raízes, que funcionam como um filtro, evitando a exalação de odores. Já a atuação das bactérias aeróbias na camada das raízes, não produz gases que exalam odores desagradáveis, o que diferencia a ETE por zona de raízes dos sistemas convencionais de tratamento de esgoto.
Para formar a zona de raízes destas estações, segundo Seitz (1995), os juncos do gênero Phragmites são os mais utilizados, mas segundo Ambros (1998), já existem 150 espécies de plantas conhecidas para serem utilizadas em ETEs por meio de zona de raízes. Destas 150 espécies o autor sugere as seguintes espécies com resultados comprovados:
1)        Phragmites australis;
2)        Typha latifolia;
3)        Acorus calamus;
4)        Iris pseudacorus;
5)        Schoenoplectus lacustris;
A maioria das plantas utilizadas nas ETEs por zonas de raízes são plantas consideradas exóticas para a flora brasileira, com exceção da Typha spp que são consideradas cosmopolitas. No Brasil foram testadas algumas destas plantas acima mencionadas como a Phragmites communis, utilizada por Corbeline (1995) em leitos de secagem de lodo. Leopoldo et al. (2000), utilizaram a planta Juncus sellovianus e Echinocloa cruz pavones em uma estação de tratamento de efluente implantada na colônia de trabalhadores rurais da Fazenda Experimental Lageado.
Neste artigo foram analisados os resultados obtidos em seis ETEs por zona de raízes onde foram utilizadas três espécies de plantas nativas, Cladium mariscus (ETE 3), Typha domingensis (ETE 4, 6, 7 e 8) e Crinum salsum (ETE 5) (Figura 03), as quais são nativas da APA de Guaraqueçaba e duas ETEs por zona de raízes com as plantas exóticas Cana indica, Papirus do Nilo, Helicônias, Mini-Papirus, Junco (ETE 1 - Figura 04a), e o copo-de-leite - Zantedeschia aethiopica (ETE 2- Figura 04b). As ETEs com plantas nativas obtiveram eficiência acima dos 80% nas reduções de DBO e DQO (Tabela 02 e 03), enquanto as plantas exóticas estão nos níveis exigidos pela legislação ambiental, porém com uma eficiência de  77% (Tabela 02). Parte do  processo de conscientização dos usuários em relação ao tratamento do esgoto se faz utilizando a percepção destes em relação à planta tornando-a um dos indicadores de eficiência da estação pelo aspecto das mesmas, assim como a possibilidade de visualizar o efluente tratado (Figura 05), que causa um impacto positivo no usuário das ETEs.
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As ETEs por zona de raízes são, portanto, sistemas vivos que interagem com o ambiente. Esta condição afeta um dos parâmetros biológicos, os Coliformes Totais, que apresentam uma interferência em sua eficiência causada pelas plantas da zona de raízes, e pela interação com ambiente, podendo-se explicar os resultados não muito significativos na redução de Coliformes totais, que não apresentarem uma grande remoção, apresentando 59% de eficiência para este parâmetro (Tabela 04 e 05), já em relação aos coliformes termotolerantes, os resultados são muito mais satisfatórios, ocorrendo uma eficiência de remoção que varia entre 70%  a 99% (Tabela 04 e 05). Estes resultados podem ser explicados devido à presença das próprias plantas que, desenvolvendo um ambiente propício possuem uma dinâmica ambiental que necessariamente interage com diversas formas de Coliformes que correspondem aos Coliformes totais. Isto significa que bactérias provenientes das plantas presentes no sistema influenciam o resultado mantendo uma constância nos  coliformes totais.  Já  os  Coliformes termotolerantes, devido  ao  ambiente desfavorável de competição para os mesmos, e pela presença do filtro de areia, sofrem uma constante redução nestes sistemas de tratamento de esgoto.
Portanto, na análise dos parâmetros microbiológicos, coliformes totais, é possível detectar bactérias advindas do solo, da água, de plantas e do próprio efluente, sendo, portanto este tipo de
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Conclusão

Os patamares do desenvolvimento sustentável começam a ser alcançados quando as questões básicas da sociedade começam a ser solucionadas. Dentre as questões básicas, uma das mais relevantes está relacionada ao saneamento básico. A análise dos processos de implantação de forma participativa e dos resultados das amostras do efluente tratado das ETEs por zona de raízes, permitiu identificar a mesma como sendo uma tecnologia apropriada, podem vir a contribuir para amenizar um dos gargalos do desenvolvimento sustentável - que é a falta de saneamento básico, e trazer uma melhor qualidade de vida para as populações carentes destes serviços. Esta possibilidade na melhoria da qualidade de vida por meio da oferta de saneamento adequado, viabiliza uma nova perspectiva para o desenvolvimento de outros setores, incrementando o potencial econômico e ambiental local.
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As inovações realizadas nas ETEs por zona de raízes, que as pesquisas paranaenses viabilizaram, permite atender com tratamento adequado comunidades da zona rural, principalmente em áreas alagadas e de linha de maré e também residências e escolas da zona urbanas não atendidas por rede coletora de esgoto. Um dos pontos fortes desta tecnologia é a sua flexibilidade para se adaptar a diferentes ambientes, a utilização de recursos locais, além de ser uma ferramenta para educação ambiental.
Durante o desenvolvimento deste trabalho/pesquisa a conscientização, capacitação e o repasse da técnica para as comunidades foram priorizadas, resultando na construção participativa de cerca de 50 ETEs em Unidades de Conservação do litoral do Estado do Paraná e em áreas de mananciais da região metropolitana de Curitiba, assim como estações de maior porte nos municípios de Foz do Iguaçu e Campos do Jordão.
A troca de informação contínua entre os pesquisadores e a população local, beneficiados com a nova tecnologia, possibilitou um intercâmbio que foi considerado tão importante quanto o desenvolvimento da própria tecnologia, pois é nesta ação preliminar é que se vai determinar o sucesso ou fracasso da aplicação da nova tecnologia. E baseado nos resultados observados em relação à mudança de comportamento dos usuários das ETEs durante este intercâmbio, ficou comprovado que este sistema também pode ser um forte instrumento de educação ambiental.
O desenvolvimento de tecnologias acessíveis, simples e eficazes para o saneamento básico são ferramentas importantes que possibilitam o desenvolvimento sustentável associado com a conservação ambiental.



Referências bibliográficas

AMBROS; EHRHARDT; KERSCHBAUMER. Pflanzen-kläranlagen selbst gebaut. Stuttgart: L. S. Verlag, 1998. 148 p.
BAHLO, K.; WACH, G. Naturnahe Abwasserreinigung. Freiburg: Ökobuch, 1996. 137 p. CONAMA –  CONSELHO NACIONAL DE MEIO AMBIENTE. Resolução Nº 274 de 29 de novembro 2000 - Revisa os critérios de Balneabilidade em Águas Brasileiras. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em : <http://www.mma.gov.br/port/conama> Acesso em: 12 jul.
2003.
FUNASA-FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Manual de Saneamento. Ministério da Saúde,
225 p. Brasília, 1994.
IAP – INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ. Balneabilidade das praias do litoral do Paraná. Boletim nº 15 – 18/02 à 23/03/2007. Disponível em: www.pr.gov.br/meioambiente/iap/pdf/bb_litoral.pdf. Acessado em: 02/04/2007.
IBGE-INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – Censo 2000. Disponível em: www.ibge.Br/ibge/estatística/população/condicaodevida/indicadoresminimos/tabela3.shtm. Acessado em: 03/01/2002.
IWSC-INTERNATIONAL WATER AND SANITATION CENTER.  Banco Mundial. Monitoreo de los Objetivos de Desarrollo del Milenio en Agua y Saneamiento. Una Revisión de experiencias y desafíos. 82 p. Lima, 2004.
LEHMANN, M. Einfluss Klimatischer Faktoren auf die Reiningungsleistung von Abwässern in
Pflanzenkläranlagen. Dipl.-Arb., Lehrst. Geographie, Univ. München., 1990
ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – BRASIL. Sumário executivo: uma leitura das nações Unidas sobre os desafios e potenciais do Brasil. Brasília, 2005. Disponível em: www.onu-brasil.org.br/doc/CCABrasil2005-por.pdf. Acessado em 01/03/2007.
PAS-LAC-PROGRAMA DE ÁGUA Y SANEAMENTO REGIÓN AMÉRICA LATINA Y EL CARIBE. Water and Sanitation Program World Bank. Sistemas de información en agua y saneamiento Experiencias y lecciones aprendidas de America Latina, 52 p. Peru, 2005.
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Autores: Tamara S. van Kaick (Bióloga, Especialista em Microbiologia (PUC), Mestre em
Tecnologia (UTFPR) e Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR))
e-mail: ecodamata@terra.com.br
Carolina X. de Macedo (Oceanógrafa, Master en Gestión y Conservación de la
Biodiversidad en los Trópicos e Mestre em Sistemas Costeiros e Oceânicos (UFPR))
e-mail: carolina_ximenes@hotmail.com
Rosélis  A.  Presznhuk  (Tecnóloga  Química  Ambiental,  Mestre  em  Tecnologia
(UTFPR))

AINDA O LIXO


Em Borås, na Suécia, a maior parte dos resíduos sólidos gerados pela população de cerca de 64 mil habitantes é reciclada, tratada biologicamente ou transformada em energia (biogás), que abastece a maioria das casas, estabelecimentos comerciais e a frota de 59 ônibus que integram o sistema de transporte público da cidade.
Em função disso, o descarte de lixo no município sueco é quase nulo, e seu sistema de produção de biogás se tornou um dos mais avançados da Europa.
“Produzimos 3 milhões de metros cúbicos de biogás a partir de resíduos sólidos. Para atender à demanda por energia, pesquisamos resíduos que possam ser incinerados e importamos lixo de outros países para alimentar o gaseificador”, disse o professor de biotecnologia da Universidade de Borås, Mohammad Taherzadeh, durante o encontro acadêmico internacional “Resíduos sólidos urbanos e seus impactos socioambientais”, realizado em 30 de março, em São Paulo.
Promovido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Borås, o evento reuniu pesquisadores das duas universidades e especialistas na área para discutir desafios e soluções para a gestão dos resíduos sólidos urbanos, com destaque para a experiência da cidade sueca nesse sentido.
De acordo com Taherzadeh, o modelo de gestão de resíduos sólidos adotado pela cidade, que integra comunidade, governo, universidade e instituições de pesquisa, começou a ser implementado a partir de meados de 1995 e ganhou maior impulso em 2002 com o estabelecimento de uma legislação que baniu a existência de aterros sanitários nos países da União Europeia.
Para atender à legislação, a cidade implantou um sistema de coleta seletiva de lixo em que os moradores separam os resíduos em diferentes categorias e os descartam em coletores espalhados em diversos pontos na cidade.
Dos pontos de coleta, os resíduos seguem para uma usina onde são separados por um processo ótico e encaminhados para reciclagem, compostagem ou incineração.
“Começamos o projeto em escala pequena, que talvez possa ser replicada em regiões metropolitanas como a de São Paulo. Outras metrópoles mundiais, como Berlim e Estocolmo, obtiveram sucesso na eliminação de aterros sanitários. O Brasil poderia aprender com a experiência europeia para desenvolver seu próprio modelo de gestão de resíduos”, afirmou Taherzadeh.
Plano de gestão – Em dezembro de 2010, foi regulamentado o Plano de Gestão de Resíduos Sólidos brasileiro, que estabelece a meta de erradicar os aterros sanitários no país até 2015 e tipifica a gestão inadequada de resíduos sólidos como crime ambiental.
Com a promulgação da lei, os especialistas presentes no evento esperam que o Brasil dê um salto em questões como a compostagem e a coleta seletiva do lixo, ainda muito incipiente no país.
De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 18% dos 5.565 municípios brasileiros têm programas de coleta seletiva de lixo. Mas não se sabe exatamente o percentual da coleta seletiva de lixo em cada um desses municípios.
“Acredito que a coleta seletiva de lixo nesses municípios não atinja 3% porque, em muitos casos, são programas pontuais realizados em escolas ou pontos de entrega voluntária, que não funcionam efetivamente e que são interrompidos quando há mudanças no governo municipal”, avaliou Gina Rizpah Besen, que defendeu uma tese de doutorado sobre esse tema na Faculdade de Saúde Publica da USP em fevereiro.
Na região metropolitana de São Paulo, que é responsável por mais de 50% do total de resíduos sólidos gerados no estado e por quase 10% do lixo produzido no país, estima-se que o percentual de coleta seletiva e reciclagem do lixo seja de apenas 1,1%.
“É um absurdo que a cidade mais importante e rica do Brasil tenha um percentual de coleta seletiva de lixo e reciclagem tão ínfimo. Isso se deve a um modelo de gestão baseado na ideia de tratar os resíduos como mercadoria, como um campo de produção de negócios, em que o mais importante é que as empresas que trabalham com lixo ganhem dinheiro. Se tiver reciclagem, terá menos lixo e menor será o lucro das empresas”, disse Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.
Nesse sentido, para Raquel, que é relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre direitos humanos de moradia adequada, a questão do tratamento dos resíduos sólidos urbanos no Brasil não é de natureza tecnológica ou financeira, mas uma questão de opção política.
“Nós teríamos, claramente, condições de realizar a reciclagem e reaproveitamento do lixo, mas não estamos fazendo isso por incapacidade técnica ou de gestão e sim por uma opção política que prefere tratar o lixo como uma fonte de negócios”, afirmou.
A pesquisadora também chamou a atenção para o fato de que, apesar de estar claro que não será possível viver, em escala global, com uma quantidade de produtos tão gigantesca como a que a humanidade está consumindo atualmente, as políticas de gestão de resíduos sólidos no Brasil não tratam da redução do consumo.
“O modelo de redução da pobreza adotado pelo Brasil hoje é por meio da expansão da capacidade de consumo, ou seja: integrar a população ao mercado para que elas possam cada vez mais comprar objetos. E como esses objetos serão tratados depois de descartados não é visto como um problema, mas como um campo de geração de negócios”, disse.
Na avaliação de Raquel, os chamados produtos verdes ou reciclados, que surgiram como alternativas à redução da produção de resíduos, agravaram a situação na medida em que se tornaram novas categorias de produtos que se somam às outras. “São mais produtos para ir para o lixo”, disse.
Incineração – Uma das alternativas tecnológicas para diminuir o volume de resíduos sólidos urbanos apresentada pelos participantes do evento foi a incineração em gaseificadores para transformá-los em energia, como é feito em Borås.
No Brasil, a tecnologia sofre resistência porque as primeiras plantas de incineração instaladas em estados como de São Paulo apresentaram problemas, entre os quais a produção de compostos perigosos como as dioxinas, além de gases de efeito estufa.
Entretanto, de acordo com José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, grande parte desses problemas técnicos já foi resolvida.
“Até então, não se sabia tratar e manipular o material orgânico dos resíduos sólidos para transformá-lo em combustível fóssil. Mas, hoje, essa tecnologia já está bem desenvolvida e poderia ser utilizada para transformar a matéria orgânica do lixo brasileiro, que é maior do que em outros países, em energia renovável e alternativa ao petróleo”, destacou. (Fonte: Elton Alisson/ Agência Fapesp)